domingo, 26 de dezembro de 2010

correndo fora de tempo

lembro que da última vez foi ruim
eu quis transformar o longe em perto
(inutilmente)
e saí carregando comigo as lágrimas

não foi qual a penúltima vez
de novo a sensação de não acredito
e te ouvir falar
(eternamente)

acho que só gosto dos poemas porque estão
tão próximos

duas semanas
seis meses e vinte e dois dias
oito meses e dez dias
nove meses (amanhã)

acho que só gosto dos amores porque estão
tão longe

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

vamos pular essa parte

"É sério?" ele perguntou. "Então você é o contrário de todas as garotas."
"É", ela suspirou. "Eu sei..."

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

procura-se

onde colocar um sentimento tão grande?
ele não cabe mais no meu quarto escuro e solitário

onde colocar palavras tão densas?
elas não cabem mais na minha garganta seca e embargada

onde colocar pensamentos tão recorrentes?
eles não cabem mais na minha cabeça cheia e perturbada


me dá o endereço depois

domingo, 19 de dezembro de 2010

algumas perturbações

Perdi para ti todas as palavras bonitas no momento em que te beijei. Agora só consigo colocar no papel tripas secas deformadas pela saudade e pela paixão. São palavras brutas, que me acometem e tiram o sono, que me desnutrem e me colocam de joelhos.

Eu choro como uma criança, te esperando aparecer após a curva. Eu choro e soluço as palavras, esperando secretamente que elas funcionem como um feitiço para te trazer pra perto.

Minha cabeça pesa e pende e cai e rola. Mas não tem importância, pois meus pensamentos são seus.. Tão seus que não há entre eles espaço para nenhum lirismo vaidoso e acessório que possa ocupar um espaço que é seu. É seu, juro.

Não precisa pedir nada por ele

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Do outro lado da baía

Eu olhava para seus pés e eles me olhavam de volta. Eles estavam diferentes.
Talvez fosse meu olhar envergonhado - o mesmo que repelia o seu olhar
e me impedia de levantar o queixo para te encarar.

Eu não sabia que aquilo tudo estava por vir, e que eu seria capaz de abrigar aquele choque todo no peito
(Se bem que dava, porque eu abri um espaço te falando todas aquelas coisas que eu nem imaginava)

Será que eu fui tão boba assim, de achar que estava girando a tampa pro lado certo enquanto eu estava era atarrachando cada vez mais?
Não, não! Você me disse várias coisas. Deixa eu acreditar nelas? Vamos ficar no momento em que você as disse. No momento em que eu só via o seu sorriso no escuro, e que eu achava que estava tão incógnita
Mas na verdade eu estava desnuda. E você dava uma moeda pelos meus pensamentos.
Mas e os seus?
Será que os seus são singelos e floridos como você me deu?
Ou é tudo doloroso como acordar no lusco fusco com os olhos pesados e ardidos?

Eu esperei

E a gente andou vários percursos lado a lado. Mas era como uma presença estranha que eu não entendia.
Era outra pessoa.
Mas, de qualquer maneira, ainda era a pessoa que sabia o número (só para me certificar).

Agora eu já não sei mais. Eu tomei coragem de transpor a tela escura. E só ouvi você falar "eu estava esperando"

Então... Tá. O relógio está correndo.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

primeira partida

Eu odeio quando eu tô no banho bem quente e aí ligam o outro chuveiro e a água esfria (você me perguntou se ela me tratava bem e eu disse que sim, mas se passaram algumas horas e e agora eu já não sei mais). É mais ou menos a mesma sensação que eu tenho ao encher as prateleiras daqui esvaziando as daí.
Meu coração, ou tripas, tanto faz, tá meio esvaziado junto com as prateleiras. E não tem bupropiona que resolva isso. Nossas cicatrizes e narizes e pés... Mas eu tenho medo da próxima.

Acho que a saudade é o único rejunte pra nossa construção.

sábado, 18 de setembro de 2010

vanity

Ela disse "você nem tá mal"
E eu me achei a tal
Achei que tava tudo bem
De manhã não precisava de ninguém

Ela disse "vai dar tudo certo"
E eu achei que tava perto
Achei que não ia ser nada
De tarde, meio desconfiada

Ela disse "talvez seja melhor assim"
E eu achei que sim
Achei que ia conseguir
De noite, sem ter para onde ir

sexta-feira, 16 de julho de 2010

overseas

Melhor do que eu
sem eira nem beira
dormindo num colchão
no chão
sem computador
pra chamar de meu

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Temor

Eu tenho medo de trovão, está chovendo
mas será que ele vem?

Eu tenho medo de tubarão, estou à deriva
mas será que ele vem?

Eu tenho medo de te perder, estou só
mas será que ele vem?

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Desnortear

É por você que escrevo essas linhas tortas; tão tortas quanto meus passos quando ando por aí sem rumo (sempre). Você era meu norte, e, de repente, a bússola quebrou. Em mil pedacinhos (...)

Vários mosquitos me picaram hoje. Acho que é porque meu sangue tá cheio de pedacinhos do meu coração, que quebrou. Igual à bússola. Coincidência, né? Acho que é porque você era o norte dos dois...

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Ambivalente

São cinco da tarde, meu bem
Estou olhando para o meu umbigo
O céu do lusco-fusco é lilás
E você não está aqui comigo

Será que é dia sagrado?
Ou sou eu que estou de castigo?
São cinco da tarde, meu bem
E você não está aqui comigo

Não sei se tu és meu amigo
Teu beijo não é mais o mesmo
E você não está aqui comigo

Não tenho noção do perigo
Pensei em dizer que te amo
E você nem está aqui comigo

terça-feira, 20 de abril de 2010

Acepção

Ontem eu gemia um gemido
Mudo e cheio de euforia
Seu olhar era pesado e me despia
E eu sabia que nada podia fazer
Senão a ti pertencer

Hoje eu choro um choro
Sonoro e ardente
Seu olhar é cruel e ausente
E eu sei que nada posso pensar
Senão em por ti esperar

Amanhã eu rirei um riso
Amargo e cheio de segredos
Seu olhar será distante e dará medo
E eu saberei que nada poderei fazer
Senão de ti esquecer

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A nível de inspiração

Ah, se ao te conhecer
Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir

Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir

Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu



Chico sabe...

domingo, 18 de abril de 2010

Tão pobrinha

Meus embates são
Comigo a cada
Segundo em que a tua
Imagem vem à mente
E eu lembro do teu
Riso enquanto as
Lágrimas rolam na
Minha cara de coitada
A tristeza não põe
Mesa

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Nero

Eu vejo pela fechadura
Cada vez mais escura

Eu vejo a minha vida
Cada vez mais turva

Eu vejo as esperanças
Carregadas pela chuva

Eu vejo a felicidade
Sumir depois da curva

Moléstia

Algo está brilhando
No meu lixo
Algo está molhado
Na minha porta
Algo em mim está virando
Um bicho
Algo está me fazendo
De morta

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

As longas unhas

Enquanto você esteve fora
Minhas unhas tiveram várias cores
Perfurei com elas minhas entranhas
Para me distrair de outras dores

Nessa sua eterna ausência
Eu jamais medi esforços
Numa triste paciência
Achada em meio a destroços

Esperando a sua volta
O fantasma da solidão
Foi minha maior escolta

Eu conto dia após dia
Enclausurada em mim mesma
Como beata na romaria

concebido em da van

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Haikai transiberiano

Seus olhos eslavos
Derretem campos gelados
Olhando enviesado

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Vivível

Desde que eu comecei a dar pitaco em assuntos de literatura, eu tinha formada a opinião de que eu odiava Clarice Lispector. E sempre me orgulhei disso. Meu primeiro contato com ela foi num livro que meu pai - o mesmo que me levou pra ver um filme iraniano quando eu tinha 8 anos e O Escorpião de Jade quando eu tinha 9 - me deu quando eu era pequena, A mulher que matou os peixes. Eu senti naquele livro que me fora presenteado uma aura profunda demais, meio problemática. Já não gostei. E aí, com o passar do tempo, com as informações sobre ela que eu ia pescando, eu ia montando um quebra cabeça superficial, daquela mulher misteriosa que fazia uma literatura completamente abstrata e espiritual.
Não sou de todo injusta; resolvi dar-lhe uma chance ao achar em casa um exemplar de Uma aprendizagem. Fatalmente, abandonei o romance nas suas primeiras páginas, quase praguejando: "Isso é abstração demais pra mim."
Clarice tinha ficado jogada em algum canto da minha memória, até que, ano passado, quando comecei a ter aula de literatura brasileira, ela ressurgiu das cinzas como uma personagem fundamental no romance de 30. Minha aversão voltou na forma de zombaria com relação à denominação "prosa intimista" dada à sua literatura. Mas, já dizem por aí, quem muito desdenha quer comprar, e então essa minha aversão foi dando assunto demais, eu me pegava conversando sobre Clarice Lispector com várias pessoas. E foi numa dessas conversas, com meu pai, que compreendi que eu não odiava Clarice. É bem verdade que, com tudo que eu entendia sobre sua literatura, achava de fato que era abstração demais para mim. No entanto, percebi que o meu verdadeiro ódio é por asseclas - femininas, em sua esmagadora maioria - que se entregam à Clarice de corpo e alma, se referindo à escritora por seu primeiro nome em um tom de cumplicidade extrema, como se a existência dessa pessoa significasse alguma coisa para ela. Asseclas estas que, também em grande maioria, não entendem nada de literatura, e que, no entando, enchem a boca para citar alguma frase clichê de Clarice Lispector, que elas provavelmente procuraram no wikiquote, já que estavam ocupadas demais para ler de fato algum livro.
Foi aí que decidi dar uma chance de fato para ela. Foi uma distensão lenta, gradual e segura. Comecei a ler sobre sua técnica de fluxo de consciência, ler uma coisa ou outra sobre sua vida... Passei daí a alguns contos. Gostei de alguns mais, de outros menos, mas não adorei nenhum. Aí então tomei coragem e li A paixão segundo G.H.. Foi a coisa mais abstrata que eu li em toda a minha vida. Era praticamente imaterial, por vezes inconsistente. Difícil, sem dúvida.
Quanto mais eu lia, mais crescia não meu interesse por ler mais de sua literatura, e sim, o de saber mais sobre quem estava por trás daquilo tudo. Devia haver algum motivo para aquela abstração toda. Nenhum reles mortal que faz três refeições por dia, dorme durante 8h e assiste fantástico no domingo teria de onde tirar aquilo tudo. Aí então decidi ler a nova biografia da escritora, escrita por Benjamin Moser.
Percorri toda a minha trajetória clariceana apenas para dizer que foi funamental ler esta biografia. Lembro-me de uma conversa que eu tive com um amigo, antes de comprar o livro, dizendo que "Não sou fã da literatura da Clarice Lispector, mas ela me intriga muito. Não quero comprar um livro dela, e sim sua biografia" ao que ele me respondeu "Ela era só uma mulher desocupada com um filho esquizofrênico, o que interessa mesmo é a literatura dela". E é aí que mora o engano. Sua literatura intimista, hermética, abstrata, espiritual, seja lá qual for o nome com o qual desejem orná-la, é fruto de uma personalidade única, marcada por experiências muito fortes. Me sinto tragicamente clichê em dizer todas essas coisas, mas são os fatos. Depois de lida a biografia, me sinto mais apta em destrinchar sua literatura.
A última coisa que eu quero na minha vida - empatado com ser professora de portugês em escola - é me tornar uma dessas claricettes acéfalas. No entando, me vejo obrigada a dizer que me identifiquei com muitas descrições de fatos de sua vida presentes no livro. Não sei se isso aconteceu pelo fato de minha casa estar sendo tomada por baratas ultimamente (para quem não sabe, aparentemente, Clarice Lispector tem uma certa fixação pelo inseto, que aparece como coadjuvante em diversos escritos, e é o protagonista do romance A paixão segundo G.H. e do conto A quinta história) ou se foi pela fenomenal declaração de Affonso Romano de Sant'Anna, de que, depois de um súbito desaparecimento de Clarice de um seminário de epistemologia, ele ligou para ela para perguntar se estava tudo bem, ao que ela respondeu "Aquela discussão toda me deu tanta fome que eu vim para casa e comi um frango inteiro."
É difícil fugir de clichês quando se fala de alguém tão marcante quanto Clarice Lispector. Mas, como ela mesma disse "Estou caindo no discurso? que me perdoem os fiéis do templo: eu escrevo e assim me livro de mim e posso então descansar."

sábado, 30 de janeiro de 2010

Sou feira

Não sei se o problema
É o requeijão ou a faca
Vertendo sangue volúvel
Da minha carne fraca

É por você o sacrifício
Que sacia a fome
E alimenta o vício
Que leva teu nome

Não sei se meu erro
É viver por você
Nesse velho desterro

É por você que eu espero
Tecendo minha mortalha
Com esmero

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Haikai do outono triste

Andada no vale
De lágrimas com folhas
Que teimam em não cair

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Redondilha

O meu amor me balançava
Ao chegar devagarinho
Por dentro tudo gelava
Aos sussurros de pertinho
Eu dizia se demora
Mas vinha sempre o sol
Pra levar meu amor embora


Experiência parnasiana número 1