segunda-feira, 18 de maio de 2020

Quarentena

Vivendo em slow motion
Fazendo casa na fruteira
Tentando separar a tangerina
da casca
Enquanto te espero 
Para a ceia de Natal


Agora sou Penélope
Depois de ser Ulisses
Fugindo de certos cantos
Fugindo para certos cantos
Teço a mortalha com fios

de cabelo e lágrimas

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Normalcy bias

Fica em casa
Esquece a máscara
Fica comigo

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Aparte

Nada disso aconteceria
Se eu olhasse a caixa de
Ovos antes de comprar

É que ando estranhamente otimista
Ou talvez seja só inconsequente

Vou naquela convicção
Que só os entorpecentes trazem

Cafezinho do self-service
Cerveja na mente vazia
Banho gelado
Paixão

Mas só até chegar a neurose
Permitindo vez ou outra uma surpresa boa

Susan disse que é hora de agir
Mas espere para assinar contratos

Blastos e GVHD
Bomba de sódio e potássio
Bananada e karma
Peito e cabeça

Caminhando na mesma direção
Também conhecida como
O pior de dois mundos

terça-feira, 14 de maio de 2019

Jacaré

Esse forno é muito rápido, digo
Ou fui eu que perdi a noção do tempo?

Falando coisas
Que não existem faladas
Que só existem pensadas
Que só existem feitas

Não tenha medo de dizer não
Não tenha medo de dizer sim
Não tenha medo de dizer

vai
que
é
tua

Que solitário é morrer tão
Longe de casa
Sem ninguém te esperando

Refaço o movimento de olhar pra cima
Procurando a luz acesa do segundo andar
Ou fui eu que perdi a noção do tempo?

Se você pergunta
Numa sala vazia
Você realmente
Perguntou?

Se a sua mensagem
Não é lida
Você realmente
Enviou?

Nem todas as respostas são
Pra perguntas, digo
Ou fui eu que perdi a noção do tempo?

domingo, 28 de abril de 2019

Brilho e Bocejo

Hoje acordei com uma vontade
Louca de não mentir
Exercitar o diafragma
Harmonizar o flerte
Disfuncionalmente

Da mesma forma que exibo
Meus conhecimentos de genética
Falando das patas dos siameses
Aproveitando para pedir votos
Mandando correntes no zap

Uma grande mistura de peito
Em que é tão difícil voltar
Pro lugar de onde a gente saiu

E é tão difícil sair da inércia
Por estarmos sempre esperando
Aquela coisa extraordinária
Um grand gesture
Que nos tire dos eixos

Mas a verdade é que a vida
É composta majoritariamente
De meios tons

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Restraint bias

Mais um dia que
Eu digo que não vou te
Mandar uma mensagem

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Aponeurose

Domingo de sol
Como viver fora da geladeira?

Caminhar até o desfiladeiro
Sobre um tapete de pregos
Como quem se dirige
Ao pelotão de fuzilamento

Apenas com os olhos
Quebrando os pratos
Um atrás do outro

Cavando os azulejos e
Rejuntando minha
Cavidade abdominal
Até alcançar minha própria
Anatomia Cinza

Me escondo atrás do avental
Enquanto provo um pouco
Da colher de pau

E descarto as cinzas, essa
Miríade de pequenos sonhos
Como larvas
Na panela de moqueca

Fora da geladeira