quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Espera sofrida e boa

Então eu te disse que me doíam essas esperas, esses chamados que não vinham, e quando vinham sempre e nunca traziam nem a palavras e às vezes nem a pessoa exatas. E que eu me recriminava por estar sempre esperando que nada fosse como eu esperava, ainda que soubesse.

ABREU, Caio Fernando. O Dia de Ontem In: O ovo apunhalado

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Tempus regit actum

Indicativo

Presente: Agonizar (Eu agonizo. Tu agonizas?)
Pretérito perfeito: Acontecer (Aconteceu, já era)
Pretérito imperfeito: Imaginar (Eu sempre imaginava como seria)
Pretérito mais que perfeito: Querer (Quisera eu...)
Futuro do pretérito: Ser (Eu sempre imaginava como seria)
Futuro do presente: Continuar (Eu sempre imaginava como seria, e acho que continuarei imaginando)

Subjuntivo

Presente: Conseguir (Espero que eu consiga enfrentar)
Pretérito imperfeito: Poder (Se eu pudesse ler seus pensamentos...)
Futuro: Dar (Vou rir disso quando der tudo certo)

Formas nominais:

Particípio: Consumar/estragar (Está consumado, e, quiçá, estragado)
Gerúndio: Sofrer (não vou admitir que estou sofrendo)
Infinitivo: Fazer (Já não sei mais o que fazer., exceto talvez imaginar como seria...)

segunda-feira, 14 de março de 2011

palavras bonitas e avassaladoras

Às vezes eu não consigo dormir, com fome.
Fome de palavras bonitas e avassaladoras, com as quais eu possa me identificar, sofrer junto, ter uma merda de uma catarse.
Tenho orgasmos com as palavras bonitas e avassaladoras. Quero transcender, entrar no papel, pegá-las, abraçá-las, beijá-las.

"Vocês são minha alma gêmea", eu diria. "Nunca me identifiquei tanto com alguém. Nunca me emocionei tanto com alguém. Ninguém nunca me refletiu tão bem".

Quero me casar com as palavras bonitas e avassaladoras. Sei que elas não me decepcionarão, não me trairão, não me deixarão. Sei também, contudo, que não virão atrás de mim, perdidamente apaixonadas.

É isso que eu amo nas palavras bonitas e avassaladoras. Elas são ideias fixas, perfeitas, imutáveis, para as quais eu posso ficar eternamente olhando. Tendo catarses. E orgasmos. E elas não me olharão de volta.

Só gosto dos poemas porque estão tão próximos.

Só gosto dos amores porque estão tão longe.

domingo, 6 de março de 2011

paixões fluviais

vários segundos sem respirar várias horas sem comer várias noites sem dormir várias semanas de várias paixões arrebatadoras e febris vividas como se fossem a última mas sempre esperando a próxima.

(Fome de viver, êxtase existencial, quero abraçar o mundo, rios metafísicos, etc.)

Iam se atropelando como se fossem a razão de ser, até que finalmente se interpunham e me davam sucessivos choques térmicos nos picos de suas áreas de interseção

Como se fosse "Eu te juro amor eterno e amanhã já te esqueci", etc.

SÃO rios metafísicos. É como disse Heráclito: "Tudo flui"

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Amanhã a gente não se viu

Amanhã a gente não se viu
Na soleira da sua porta
Eu não quis dizer
oi

Amanhã eu fiquei com medo
Dos seus tantos compromissos
Da sua escapatória ao dizer
depois

Amanhã eu não soube o que fazer
Com você rondando por aqui
Sem coragem de dizer
talvez

Amanhã eu pensei
Que pudesse me mover
Mas fico parada até poder dizer
adeus

domingo, 23 de janeiro de 2011

open the box

muitas mãos e olhos espalhados
não vou olhar pro lado
cabelos e bocas misturadas
não vejo nada

meu sorriso é o de alguém
que maliciosamente guarda
um segredinho

foi quando eu percebi
que a temperatura do meu sangue
está bem abaixo do que eu imaginava

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

fire of unwknown origin

Death comes sweeping down the hallway in a lady's dress
Death comes riding up the highway un its Sunday best
Death comes I can't do nothing
Death goes there must be something that remains
A fire of unknown origin took my baby away



Patti Smith

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

72

Não havia mais nada entre nós. Será que então poderia haver algo entre nós? No meu entorpecimento eu fui sem ver aonde, senti sem saber o que, de novo a sensação de não acredito, e palavras sussurradas no ouvido, mas que ecoavam guturais no cérebro, e eu era uma marionete sua, desprezando atrito e resistência, sem me importar com o pó. Tudo para poder te ver depois e poder guardar o seu rosto na carteira.

Então veio o vazio, o oco, o nada. Foi quando eu descobri que você era etéreo, e a sua onipresença e autocoletivização eram uma faca que doía cada vez mais nas minhas tripas. E ainda assim eu temia te perder de vista, temia ser, entre todas, acometida por uma cegueira (não poderia mais te olhar na carteira). Eu não quis te procurar, mas era em vão porque você estava lá, ocupando todos os espaços vazios. Eu não queria que você lesse os meus pensamentos, mas você era meu sistema nervoso. Eu não queria que você me visse nua, mas você era meu espelho. Eu não queria que você ganhasse esse jogo, mas você criou o jogo. Eu não queria que você me fizesse gostar de você, mas você é você.

E na angústia da nossa madrugada em claro, eu já não sei o que é pior: você saber o que eu sinto ou achar que eu não sinto nada.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

meio

Você falou da parte do corpo
Eu falei da calça
Você falou do momento e da pessoa
Nós rimos
E mal sabíamos

Estado, ação e fenômeno da natureza

"e eu não queria que ele pensasse que eu andava insone, e eu andava, roxas olheiras, teria que ter cuidado com o lábio inferior ao sorrir, se sorrise, e quase certamente sim, quando o encontrasse, para que não visse o dente quebrado e pensasse que eu andava relaxando, sem ir ao dentista, e eu andava, e tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era."

ABREU, Caio Fernando. Morangos Mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 1995