sábado, 19 de dezembro de 2020

um real

 dias piores virão

[é só querer

inanunciados como

o cheiro das baratas

no fundo do armário


o combinado era que

para me tornar real

eu não precisava mostrar

tomar mais uma

ligar pra ninguém


mas a eternidade é uma

grande loja de souvenir

tudo se sucede e a gente

continua se deslumbrando


ou pior:

tendo a esperança

de que vai encontrar


sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Expectation bias

Eu sabia que
Isso ia acabar
Ao som de Fagner

terça-feira, 15 de setembro de 2020

vamos voltar a ser estranhos


vamos voltar a ser estranhos

por detrás das nossas telas

banhadas em álcool-gel

e formalidades


de quem convive com a cor

da tinta errada na parede

das madeiras diferentes dos móveis

da mancha de café no sofá


na constante inconsistência

entre nossas rotinas e objetivos

o que fazemos e o que queremos

ontologia e idealização


somos o que comemos

sonhos doces e máquinas voadoras

máquinas doces e sonhos voadores

despedaçados no chão


como um vidro de geleia

esquecido numa geladeira

em outra cidade


de quem convive com a dor

da mancha de vinho na parede

da nota fora da harmonia

do lugar vazio no sofá


a angústia vem num rompante

como uma crise de espirros

que nada mais é que um orgasmo

uma perversão


a contingência de Montaigne

o copo de design escandinavo

meio vazio


segunda-feira, 18 de maio de 2020

Quarentena

Vivendo em slow motion
Fazendo casa na fruteira
Tentando separar a tangerina
da casca
Enquanto te espero 
Para a ceia de Natal


Agora sou Penélope
Depois de ser Ulisses
Fugindo de certos cantos
Fugindo para certos cantos
Teço a mortalha com fios

de cabelo e lágrimas

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Normalcy bias

Fica em casa
Esquece a máscara
Fica comigo