domingo, 23 de janeiro de 2011

open the box

muitas mãos e olhos espalhados
não vou olhar pro lado
cabelos e bocas misturadas
não vejo nada

meu sorriso é o de alguém
que maliciosamente guarda
um segredinho

foi quando eu percebi
que a temperatura do meu sangue
está bem abaixo do que eu imaginava

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

fire of unwknown origin

Death comes sweeping down the hallway in a lady's dress
Death comes riding up the highway un its Sunday best
Death comes I can't do nothing
Death goes there must be something that remains
A fire of unknown origin took my baby away



Patti Smith

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

72

Não havia mais nada entre nós. Será que então poderia haver algo entre nós? No meu entorpecimento eu fui sem ver aonde, senti sem saber o que, de novo a sensação de não acredito, e palavras sussurradas no ouvido, mas que ecoavam guturais no cérebro, e eu era uma marionete sua, desprezando atrito e resistência, sem me importar com o pó. Tudo para poder te ver depois e poder guardar o seu rosto na carteira.

Então veio o vazio, o oco, o nada. Foi quando eu descobri que você era etéreo, e a sua onipresença e autocoletivização eram uma faca que doía cada vez mais nas minhas tripas. E ainda assim eu temia te perder de vista, temia ser, entre todas, acometida por uma cegueira (não poderia mais te olhar na carteira). Eu não quis te procurar, mas era em vão porque você estava lá, ocupando todos os espaços vazios. Eu não queria que você lesse os meus pensamentos, mas você era meu sistema nervoso. Eu não queria que você me visse nua, mas você era meu espelho. Eu não queria que você ganhasse esse jogo, mas você criou o jogo. Eu não queria que você me fizesse gostar de você, mas você é você.

E na angústia da nossa madrugada em claro, eu já não sei o que é pior: você saber o que eu sinto ou achar que eu não sinto nada.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

meio

Você falou da parte do corpo
Eu falei da calça
Você falou do momento e da pessoa
Nós rimos
E mal sabíamos

Estado, ação e fenômeno da natureza

"e eu não queria que ele pensasse que eu andava insone, e eu andava, roxas olheiras, teria que ter cuidado com o lábio inferior ao sorrir, se sorrise, e quase certamente sim, quando o encontrasse, para que não visse o dente quebrado e pensasse que eu andava relaxando, sem ir ao dentista, e eu andava, e tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era."

ABREU, Caio Fernando. Morangos Mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 1995